Auxílio-Acidente

Lesão do plexo braquial: quando a sequela no braço dá direito ao auxílio-acidente

A lesão do plexo braquial não aparece em foto: o braço está inteiro, mas sem força. Este artigo explica o que é o plexo braquial, por que a perda de força e a mão caída reduzem a capacidade de trabalho, desde quando o INSS deve pagar o auxílio-acidente, o limite de cinco anos dos atrasados e por que estar desempregado no dia do acidente não afasta, por si só, o direito.

Dr. Cleyton Baeve · 27 de setembro de 2026 · 9 min de leitura

Tem um tipo de sequela que não aparece em foto. O braço está ali, inteiro, sem falta de pedaço nenhum. Mas ele não obedece. A mão cai, o punho não levanta, o braço emagreceu em relação ao outro, a força foi embora e não voltou. Quem carrega bandeja, saco de ração, caixa, engradado, quem precisa dos dois braços para trabalhar, sabe exatamente o tamanho disso. E ainda assim é comum ouvir que "não tem nada quebrado, então não tem direito". O auxílio-acidente lesão do plexo braquial existe justamente para esse tipo de sequela: a que não se vê de fora, mas rouba a força de trabalho.

O que é o plexo braquial e por que a lesão dele muda tudo

O plexo braquial é um feixe de nervos que sai da região do pescoço, passa pelo ombro e se espalha pelo braço, antebraço e mão. É por ali que o cérebro manda a ordem de mexer e é por ali que volta a sensibilidade. Pense num cabo de energia grosso, com vários fios dentro.

Quando alguém fratura o úmero — o osso do braço — num acidente forte, o nervo que passa colado nele pode ser esticado, comprimido ou rompido. O osso solda. O nervo, muitas vezes, não recupera por completo. Daí vem o que a perícia registra:

  • Perda de força no braço, no antebraço ou na mão, medida em grau pelo perito.
  • Mão caída, ou "mão em pêndulo" — quando o nervo radial é afetado, o punho não consegue levantar contra a gravidade.
  • Atrofia: o braço afinou, perdeu massa muscular, porque músculo sem comando nervoso murcha.
  • Limitação para levantar o braço ou para esticar o cotovelo por completo.
  • Alteração de sensibilidade: formigamento, área adormecida, sensação estranha ao toque.
  • Dor que aparece no uso e não passa com o tempo.

Às vezes há cirurgia para melhorar a função — transposição de tendão, microcirurgia de nervo. Melhora não é cura. Depois do tratamento, o que ficou de limitação permanente é exatamente o que interessa para o benefício.

Auxílio-acidente por lesão do plexo braquial: os três requisitos

O benefício está no art. 86 da Lei 8.213/91, corresponde a 50% do salário de benefício e é indenizatório — não é benefício de afastamento. Precisa de três coisas:

  • Qualidade de segurado na data do acidente.
  • Lesão decorrente de acidente, do trabalho ou de qualquer natureza.
  • Sequela consolidada e permanente que reduza a capacidade para o trabalho habitual.

Consolidada quer dizer estabilizada: chegou até onde ia chegar. Não significa curada.

Por que a perda de força e a mão caída reduzem a capacidade de trabalho

Aqui está o ponto que decide o pedido. Não basta dizer que o braço está ruim. É preciso mostrar como a sequela bate de frente com o que a sua função exigia. Pense no que o braço fazia no seu serviço:

  • Segurar peso com firmeza — bandeja carregada, caixa, engradado, saco de ração, balde. Com força reduzida, o risco de deixar cair é real e o esforço do outro braço dobra.
  • Pegada e preensão — apertar, girar, rosquear, segurar ferramenta. Com a mão caída, a pegada perde eficiência mesmo quando os dedos mexem.
  • Trabalhar com o braço levantado — arrumar prateleira alta, pendurar, alcançar acima do ombro.
  • Movimento repetitivo — limpar, embalar, classificar, servir. O que o braço bom faz mil vezes, o braço lesionado faz até doer.
  • Equilíbrio entre os dois lados — quase todo trabalho braçal pede os dois braços juntos, e um lado fraco compensa no outro, no ombro e na coluna.

É essa comparação — sequela contra exigência real da função — que caracteriza a redução da capacidade. E vale um lembrete: o tamanho da sequela não é o que define o direito. Em português claro, o benefício é devido ainda que a lesão seja mínima, bastando que exista redução da capacidade para o trabalho que você exercia habitualmente (STJ, Tema 416).

Desde quando o INSS deve pagar

Essa é a parte que quase ninguém explica, e é onde muito dinheiro se perde. Em linguagem de trabalhador: o benefício não começa no dia em que você entrou com o pedido. Ele começa no dia seguinte ao fim do auxílio-doença que deu origem à sequela (STJ, Tema 862, e TNU, Tema 315).

Traduzindo para a prática: se você ficou afastado recebendo auxílio por incapacidade temporária depois do acidente, e esse benefício foi cessado porque você "estava apto", mas a sequela permanente já estava lá naquele momento — é dali que a contagem começa. Não da data do requerimento. Não da data da perícia.

A TNU foi ainda mais direta ao firmar que isso vale independentemente de pedido de prorrogação do auxílio-doença ou de pedido específico de auxílio-acidente (Tema 315). Ou seja: você não perde a data de início só porque não sabia que precisava pedir na época.

E aqui o freio honesto, o que separa informação séria de promessa fácil: o direito de pedir não se perde com o tempo, mas os valores atrasados só retroagem cinco anos (Súmula 85/STJ, confirmada nos Temas 862 e 315). Não importa se o acidente foi há 5, 10, 20 ou 30 anos — o pedido pode ser feito. Mas ninguém recebe duas décadas de atrasados. Quem diz o contrário está vendendo ilusão.

Não precisa ter sido acidente de trabalho

Queda de moto na rua, atropelamento, colisão, tombo em casa. Nada disso precisa ter acontecido no horário de serviço. O auxílio-acidente também alcança o acidente de qualquer natureza: um evento súbito, de origem traumática, causado por um agente externo (TNU, Tema 269).

Uma queda de motocicleta é exatamente isso — súbita e traumática. Se havia cobertura do INSS naquele momento e ficou sequela permanente, o caminho existe.

Já as doenças ocupacionais — lesão por esforço repetitivo, DORT, perda auditiva por ruído — não seguem por esse caminho. Elas entram como acidente do trabalho típico ou por equiparação, na forma dos arts. 19 a 21 da Lei 8.213/91. É análise diferente, com prova diferente.

Estava desempregado? Estava pagando como contribuinte individual?

Duas situações derrubam muito pedido sem necessidade, e não deveriam:

  • Quem estava sem trabalho na época do acidente, mas dentro do período de graça, mantém a qualidade de segurado. Estar desempregado no dia do acidente não significa, por si só, estar fora da cobertura do INSS.
  • Quem passou a contribuir como contribuinte individual dentro do período de graça também não perde o direito por causa disso.

Esses dois pontos valem especialmente para quem trabalha por conta própria, por aplicativo, por temporada, ou para quem teve o vínculo interrompido. Vale conferir o extrato do CNIS antes de concluir que não há direito — o histórico real quase sempre diz mais do que a memória.

Continuar trabalhando não tira o direito

O auxílio-acidente não exige afastamento. Quem voltou a trabalhar, se adaptou, mudou de função, aprendeu a fazer com um braço o que fazia com dois, não apagou a sequela — só passou a pagar um preço maior para entregar o mesmo resultado. A comparação que a lei manda fazer é com a função exercida na época do acidente.

Documentos que sustentam o pedido

  • Eletroneuromiografia (ENMG) — é o exame que mostra a lesão do nervo, e costuma ser decisivo.
  • Exames de imagem do osso e do ombro: raio-x, tomografia, ressonância.
  • Relatórios médicos e cirúrgicos, resumo de alta, descrição do procedimento realizado.
  • Relatórios de fisioterapia e terapia ocupacional.
  • Prontuário do hospital do atendimento inicial.
  • Carta de concessão e de cessação dos benefícios já recebidos, e extrato do CNIS.
  • Registro da função na carteira de trabalho e descrição das tarefas.
  • Boletim de ocorrência, quando houver.

O que fazer com essa informação

Sequela de nervo é traiçoeira: por fora não aparece, e por isso é subestimada — inclusive por quem a carrega. Se você ficou com perda de força, mão caída, atrofia ou limitação permanente no braço depois de um acidente, e havia qualidade de segurado naquele momento, existe um caminho a ser analisado. Cada caso depende das sequelas registradas, do histórico de contribuição e das exigências reais da função exercida.

Este conteúdo é informativo e educativo. Não substitui a análise individual de um advogado nem garante a concessão de qualquer benefício, que depende da avaliação do caso concreto pelo INSS ou pelo Judiciário.

Perguntas frequentes

O plexo braquial é o feixe de nervos que sai da região do pescoço e comanda o ombro, o braço, o antebraço e a mão. Quando esse feixe é esticado, comprimido ou rompido em um trauma forte, o comando nervoso falha. Se o nervo radial é atingido, o punho não consegue levantar contra a gravidade — é a chamada mão caída, ou mão em pêndulo. O osso solda, mas o nervo muitas vezes não recupera por completo.

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